



Manifesto para o Bem Comum é uma obra para orquestra de cordas e electrónica, escrita por Samuel Martins Coelho a convite da Sinfonietta de Braga, que a apresenta em estreia absoluta. A obra assume-se como um gesto de escuta: uma tentativa de pensar o comum a partir do som, da sua fricção, da sua diversidade tímbrica e das suas múltiplas possibilidades de transformação. Nesse espaço, a multiplicidade de cores sonoras torna-se metáfora de convivência, onde as diferenças não se anulam, mas coexistem e se interpenetram. A obra parte de uma pergunta: o que pode significar hoje o bem comum num tempo cada vez mais polarizado, marcado pela velocidade e pelo ruído? Em vez de propor uma resposta, constrói um campo de relação entre orquestra e electrónica, tratadas não como entidades separadas, mas como materiais permeáveis que se atravessam continuamente. O som organiza-se menos por oposição do que por contaminação. Neste contexto, o comum não existe como ponto de partida, mas como processo em formação. Acontece na escuta e na relação entre materiais, ideias e camadas sonoras, expostos numa condição de vulnerabilidade partilhada. Escutar deixa de ser um gesto passivo e torna-se uma condição ética: a disponibilidade para ser afectado, deslocado e transformado. Mais do que representar uma ideia de comunidade, a obra propõe uma prática de coexistência do diferente sem o reduzir a unidade. O comum surge, assim, não como consenso, mas como fricção contínua entre presenças, silêncios e memórias. A electrónica, interpretada ao vivo pelo compositor, amplia este território, expandindo o universo tímbrico da orquestra criando um espaço onde se entrelaçam na escuta.
Manifesto para o Bem Comum is a work for string orchestra and electronics, composed by Samuel Martins Coelho at the invitation of the Braga Sinfonietta, which is premiering the piece. The work presents itself as an act of listening: an attempt to reflect on the common good through sound, its friction, its timbral diversity and its myriad possibilities for transformation. Within this space, the multiplicity of sonic colours becomes a metaphor for coexistence, where differences do not cancel each other out, but coexist and interpenetrate. The work begins with a question: what might the common good mean today in an increasingly polarised age, marked by speed and noise? Rather than offering an answer, it constructs a field of interaction between orchestra and electronics, treated not as separate entities but as permeable materials that continually intersect. Sound is organised less by opposition than by intermingling. In this context, the common does not exist as a starting point, but as a process in the making. It arises through listening and in the relationship between materials, ideas and layers of sound, exposed in a state of shared vulnerability. Listening ceases to be a passive act and becomes an ethical condition: a willingness to be affected, displaced and transformed. Rather than representing an idea of community, the work proposes a practice of coexistence between differences without reducing them to a single unity. The ‘common’ thus emerges not as consensus, but as continuous friction between presences, silences and memories. The electronic elements, performed live by the composer, broaden this territory, expanding the orchestra’s timbral universe and creating a space where these elements intertwine through listening.
Samuel Martins Coelho (1980) tem feito um percurso de descoberta e constante reinvenção da sua linguagem musical. Com raízes na música clássica, tem vindo a desenvolver uma linguagem muito própria, utilizando diversas fontes sonoras. O seu trabalho atravessa vários géneros e universos musicais, desde a música clássica, conceptual e experimental à improvisação.
A sua atividade artística desenvolve-se em vários projetos, tais como: Samuel Martins Coelho, EL RUPE, Estranhofone, Mods Collective, Space Ensemble, Escola do Rock, Pata Física, colaborando também nos projetos Ondamarela, NACO, Miguel Ramos, Gnomon, Hot Air Baloon e Atic. Em 2017 foi artista residente do AiR Programme, em Malta (Gozo), no âmbito do programa da Fondazzjoni Kreattivitá e Valletta 2018 (Capital Europeia da Cultura).
Nos últimos anos, tem colaborado como diretor musical, compositor e instrumentista com companhias de teatro como Teatro Experimental do Porto, Máquina Agradável, Comédias do Minho e Teatro Oficina. Desenvolve atividades com as comunidades e lidera intervenções musicais criativas, dirigidas a crianças e ao público em geral.